sexta-feira, 1 de março de 2019

O reflexo

Em que espelho ficou perdida a minha face? Retrato - Cecília Meireles

Virgínia abre os olhos, oscila entre o desejo de dormir algumas horas e a necessidade de levantar. Mas não há tempo, o dia será cheio de reuniões, lentamente se levanta e espreguiça o corpo, lutando contra o sono. Segui para o banheiro, alivia a vontade de fazer xixi, abre a torneira e a água cai por sobre sua pele. Começar o dia sem o banho era impensável para ela, era seu pequeno ritual, lavar os cabelos, sentir o perfume do sabonete, o barulho da água, aquele breve momento feito de puro instante.

Ao sair do banheiro envolta no robe, já devidamente acordada, exalando um cheiro suave dos produtos que passaram pela sua pele. Caminha até a cozinha para preparar o café. Enquanto a água ferve, checa alguns e-mails, o café da manhã é a largada para o dia, costuma alternar as preparações dos alimentos com o adiantamento de pequenas tarefas. Quando tudo fica pronto se senta na mesa para comer, Virgínia confere a agenda do dia, seriam três reuniões importantes para definir as estratégias de defesa.

A última etapa da manhã consiste em escolher a roupa, em anos de profissão havia aprendido o impacto da vestimenta no fechamento de contratos. Desliza suas mãos de unhas bem cuidadas por entre suas roupas. Escolhe uma saia de corte justo ao corpo, uma blusinha e um blazer.

Ela vai para frente do espelho e se posiciona como de costume para se vestir, gostava de ver a roupa em seu corpo. Vestir de fato uma roupa de fato exige aprender a atitude certa, era através do espelho que as desenvolvia. Então quando olha para o espelho para ver como estava, simplesmente não se enxerga. Virgínia sente o corpo desfalecer, um giro de torpor, será que havia ficado cega? Ela sai para a sala onde havia luz suficiente, mas podia ver suas mãos, a casa, seus quadros tudo, enxergava também se posicionasse seus olhos os contornos de seu rosto.

Virgínia sente uma onda invadindo seu corpo, tenta respirar profundamente, havia lido que respirar assim acalmava em momentos de ansiedade. Ela vai ao banheiro e se posiciona em frente ao espelho, fecha os olhos desejando firmemente que tudo tenha acabado. Ao abrir novamente não consegue ver seu reflexo, havia sumido, mas como se seu corpo ainda estava ali?

E se tentasse tirar uma selfie? Sim aí poderia se ver, corre para o celular, configura e ao fazer a foto, vira a tela e novamente cadê seu rosto?

Apalpa seu corpo, estava tudo lá, olha a casa e consegue enxergar perfeitamente. Estaria em surto? Mas a agenda, os compromissos do dia, tudo demonstrando sua sanidade mental. Como poderia ter perdido seu reflexo?

Ainda uma vez toca seu corpo para confirmar sua existência. Decide ir para o trabalho, fez as três reuniões, quem a via nem imaginava a perturbação em que se encontrava. Durante algumas vezes ao ir sozinha no banheiro, e se olhar no espelho, Virgínia chorava por ter perdido seu reflexo.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Tá lá o corpo do garoto no chão.
Eles viram,
ou
nós vimos?

No meio da roda,
um homem corpulento sobre
um garoto franzino,
não tem mais ar.

algumas vozes advertiram,
outros filmaram,
outros se calaram.
eu estava lá?

Foi o Pedro Henrique,
tinha dezenove anos,
não é um número.

nós em volta,
erámos muitos contra um,
erámos muitos para mudar uma história.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Nada além do desejo

Hoje não sou nada,
nada além de um corpo.
Isso que me percorre
da ponta de meus pés
ao alto de minha cabeça

Hoje não sou nada,
apenas esse corpo.

um corpo em pelo.
estirado nos desejos.

Hoje seria,
quase bruto
urgente.

Entre teso
Espasmos líquidos
Hoje seria só desejo.
Esse lugar sem nome.

Entre a quase dor,
do meu corpo se abrindo,
à contração do gozo.
Quase breve
Quase eterno.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Ritual

Por sobre minha pele
Deslizo essa base.

É preciso cobrir
acnes
rugas
olheiras
cicatrizes.

É possível cobrir o tempo?

Não posso carregar a passagem do tempo?

É preciso carregar o fardo da beleza.

É preciso que eu esteja sempre insatisfeita,
Me perdendo por entre imagens sensuais,
entre selfies tão distantes da mulher real.

Não cabe ser real no mundo?

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Sobre ler e apreender

(Para Giorge Bessoni)

Quando você me diz que tenho muitas recorrências
quase sempre sobre a incompletude e a inadequação,
há aí um desnudamento,
uma compreensão sobre coisas que me fundam.

como pode escrever ser tão paradoxal?
lhe digo que é um ato-segredo
quase sempre uma forma de me organizar
em pura descompressão,
ao mesmo tempo desejo que o outro leia.
|você me apreendeu, é ainda mais raro|
Desejos entre ocultar e exibir.
Você sabe resolver esse paradoxo?

Perdoe-me se às vezes lotei seu aplicativo
de mensagens,
meu desejo de descompressão em certas ocasiões é incontrolável.
|posso ser muito cansativa|
Quando você dedica seu tempo para essas linhas,
|quando cada vez temos menos tempo|
lança seu olhar e dá novos sentidos,
o que por um momento foi um ato-segredo,
passa a ser seu,
ganha vida em você.

E por que poesia?
Já me perguntei tantas vezes isso,
parece que poesia comporta melhor o ato-ânsia de expurgo,
o instantâneo é tão familiar para a poesia.

Quando você me apreende,
é sempre algo entre abismo e provocação.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Uma cama e dois universos

Meu amor,
você dorme tão rápido

te olho assim em segredo,
quando não consigo dormir
tenho demorado cada vez mais
[será a idade inversamente proporcional ao sono?]

Em ato do meu pequeno segredo,
sua respiração cadenciada,
a barriga virada para baixo
os gestos rituais.

Em uma cama,
Cabem tantas batalhas.
Algumas de puro prazer,
Outras de dor
Muitas de lágrimas
Uma cama
Quando compartilhada
é território.

Em ato do meu pequeno segredo,
te apreendo mas é sempre fugaz,
nunca inteiro,
posso te amar
mas conviverei com a incompletude da minha apreensão.

Veja meu bem,
uma única cama
cabem dois infinitos universos nesse espaço tão reduzido,
insondáveis por natureza.
pode que em nosso convívio eu te revele algumas galáxias,
você permita minhas sondas em alguns planetas
mas sempre será um mistério.

Será isso algo entre desejo e maldição?

Meu bem,
é o dia que chega
estou tão cansada.
Meu corpo ficou aqui a noite toda, mas minha alma percorreu milhares de quilômetros,
Seus olhos me sorriem.

  Congresso internacional das artes   Agora cantaremos o medo, porque não há mais rascunhos. Ninguém escreve em cadernos sujos, ne...