sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Dos traços paternos

Poucos traços seus 
Desenham os traços meus
Seus traços, sombras no meu rosto.

De herança,  os modos seus
 ao longe o sorriso frente a espera ansiada da menina, 
  [as mesmas banalidades invisíveis que tento capturar]
as quinquilharias são de grande estima 
para cada coisa uma história,
sentido dos objetos, alma de lugar.
[ teimo em diminuir minhas tralhas mas permanecem as coleções de papeizinhos                  avulsos por dentro dos cadernos de notas desimportantes] 
A música sua é avarandada para a rua,
busca de ouvintes, 
sua observância enxerga os gostos 
a marchinha do quarto centenário era do vizinho da esquina.
Pode ser o violão elegante
mas é sempre a sanfona que acende as almas.
            [ nenhum som amplifico. Música sua transformada em sentido de apreciação,
as modas sertanejas e a singeleza
formaram o território poético]

Os anos que passam em nós
aproximam os modos,
e se por vezes os modos meus são diversos
a matéria essencial é o modo seu.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Pequena crônica poética – a cidade que esmaece

Outra vez em dezembro:
dias alagados.
Os densos vapores esbranquiçados
cada vez mais pesados
 descem vagarosamente de altitude.
Em véspera natalina
pairam sobre a cidade que se torna esmaecida,
olhos identificam vagamente as coisas
apenas os piscas-piscas tremulam com vaga certeza.
[como faróis a luzir]
Lentamente os contornos nítidos retornam,
Mas ao forasteiros olhos, a cidade e os resquícios da pompa de outrora
serão cada vez mais esmaecidos pelos anos.

O azul-mar-nascente dos seus olhos,
Retém o passado.
[tão nítido].
Ouviria as suas falas por horas a fio.
Porque o tempo avoluma os pertences,
o azul-mar-nascente dos seus olhos
vai desligando o presente.

Outro dezembro 
por vezes dissolvo como torrão de açúcar.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Instruções do olhar

Olhos poucos para grandezas,
miopia do olhar
adquirida em tenra idade.

Esses modos de ver
quando criança
criavam coisas cheias de mundos.

Inabilidades adultas
são efeitos colaterais.
Incuráveis.

A reta, curva, direita, esquerda, pontos cardeais
Poderiam indicar o caminho.
A flor abriu... Já não apreendo o mapa.

Ineficácia com objetividades,
Manuais práticos, essas coisas amplamente disseminadas.
pouco contidas em mim.




domingo, 7 de setembro de 2014

1.    Poesia é palavra cansada da rotina

2.     Poema fica dependurado
Suporte analógico ou digital
cada um põe o seu onde quer
[ no box do banheiro vira esmaecimento]

3.Poesia dependurada :
saldo devedor
atordoa .
Deito os olhos, ela chama
viro de lado, ela cutuca
nada pode contra.

4.  Origem da poesia:
não identificada.
Acontece da poesia solta na rua
passar perto,
ser capturada no papel.
[ sem nenhuma coincidência com a vida real]

5. Poeta é desenhista da palavra,
tentativa de colocar ângulos.
não percebidos.
palavra esboça coisas.




sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ensinamentos antoninos

Antonino de puro cerne
ensinou-me
entre duas pessoas
deve caber certos silêncios
medida para o amor.

De tanto saber de árvore
Adquiriu modos de carvalho,
[esses modos que a gramática não ensina
vem vindo com o sentimento.]

No seu ofício
traçava nos papeizinhos
com minúsculos lápis
todos os detalhes.
Jeitos de aprender na mente
rigor milimétrico.

Por ser um pouco árvore
guardava a fé
oração tão grande
ia pondo as gentes nas contas do rosário
silenciosamente.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Colóquio infantil

( para Vilma)

Havia a mulher que detinha os poderes da cria,
as escadas chegavam ao reino.
Das mãos esticou a grama,
pelos pés brotaram os coqueiros.
Todo seu corpo ficava desenhando criações
( muitos ajeitamentos)
sua voz virava arara
ou outro bicho de asa.

Os coqueiros muitos
Rebrilhavam o sol nas folhas.
( não se usava despertador nesse reino)
Certos jeitos do sol bater
falam para os olhos abrirem.

Todos os dias deveriam ser sábados
(as folhas brilhariam para mim).

Certo dia,
menina desce a escadas
olha e sem nenhum espanto:
- Há criaturas também na cozinha?


Sim, sempre há criaturas por onde a mulher cria passa.

sábado, 2 de agosto de 2014

Astronomia da criança

                                   ( para Jamária )


Tão extensa  à noite para meus adultos olhos,
cabe sempre o espanto em cada mirada
meus adultos olhos compreendem vagamente
corpos celestes, estrelas mortas, via láctea, satélites, translação, rotação.

Nos pequenos olhos infantis
espanto, diante do negro salpicado de pontinhos brilhantes,
vira certeza após testes de mudança de direção,
- Mamãe a lua me segue por todo o mundo!
e os dedinhos em riste pleno de certezas.


Meus olhos adultos esquecem todas as constatações cientificas. 

  Congresso internacional das artes   Agora cantaremos o medo, porque não há mais rascunhos. Ninguém escreve em cadernos sujos, ne...