terça-feira, 16 de maio de 2017

Exercício urbano

Fui tomada pelo insano desejo de ver o chão,
difícil abaixar os olhos,
ensinar a métrica do chão
nesse olho tão viciado em céu.
chão moradia do invisível.

Foi pela métrica do chão
que enxerguei os pés.
Milhares deles por todos os cantos,
a natureza resoluta dos pés
|dúvida é pouco afeita ao chão|
Todos os dias pés cheios de pressa
travando lutas. É preciso caber o par.

A métrica do chão
é também para ouvidos.
Nas primeiras vezes pode ser necessário ficar de cócoras,
aprender a captar a frequência.
Com alguma prática
pode-se ouvir a caminhada dos pés,
cada tipo de chão
reverbera diferente.

Tive uma apoteose sonora,
pés em batidas harmônicas
ritmos de subidas e descidas
batuque do caminhar,
eu numa ausculta solitária
entravando o ir e vir.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Tarde da noite,
resta enrolar as palavras
deslizar por entre os dedos;
expirar, gases linguísticos.

Pode dar poesia,
ou prosa?
prosa-poética?

Pode não dar nada,
só um trago de alívio.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Vi uma boca hoje
de um vermelho
des-pu-do-ra-do,
me absorvi,
na dança tremulante.
pausas | mordidas | suspiros| saliva
vermelhos.
Não vi corpo.

Pode ser que fosse um corpo desses comuns
que andam por aí,
mas não sei
naquele breve infinito
pareceu-me que a boca era o corpo.
E a boca saiu por aí, nessa multidão de corpos comuns
Feitos de corpos com bocas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Lily

Demorei anos para me acumular aqui, agora é tempo de esvaziar. Nenhum canto da casa poderia dizer mais sobre mim do que essa estante. Deve ser essa a razão pela qual eu demoro tanto a limpar, separar, destinar, difícil dar cabo em si mesmo. São estes os meus primeiros vazios no mundo, mas tenho um certo prazer em começar o desenho de minha ausência.

Acho que precisarei de mais caixas. Sempre ocupei muito espaço. Resolvi começar o esvaziar pelos livros de papai. Durante anos fui a protetora desses livros grandes, capas duras, folhas de lateral dourada, pesados quando criança eu gostava de tocar mesmo sem nada entender, minhas mãos deslizavam pelo contorno de suas capas. Quando cresci pude conhecer meu pai pelas notas nos cantos das páginas. Escavei todos os livros na busca de seus vestígios, decorei todas as suas notas. Só consegui um esboço.

Todos ali dentro da caixa, à espera da mudança. Se pudesse não os deixaria ir, mas pode ser que em breve eu os veja lá numa outra prateleira, bonitos sendo usados de forma meio solene. Mas pode ser que eu sinta inveja de vê-los resguardando sua finalidade, não quero ver.
Está tão abafado, como se a chuva estivesse na iminência de cair. Preciso descansar um pouco, me falta ar. Sentada fico admirando a velha estante, com todos os porta-retratos, tantas versões de mim. Esqueci todas elas, faz tanto tempo. O corpo se transformou para acomodar todas em mim, difícil se caber, dói todo dia. O reflexo no fundo da estante, tão esquisito parece que a cara sempre foi assim.

Tudo tão organizado, cada coisa no seu lugar. Durante tanto tempo desejei isso, só agora entendi, o que sempre me salvou foi o deslocamento. O mundo teria sido menor se tudo estivesse sempre no lugar, se sentisse tudo com ar de plenitude.

Estava aqui lembrando dessa estante vazia, foi preciso uma vida para preenche-la. A campainha tocou, sim são eles, lá se vão os livros. Esvaziar coube na exata meia hora da espera.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Atmosférico

Ontem vi,
A nuvem grávida,
de um arco-íris.
Era assim bem pequenino
reluzia as bordas brancas
com tons nascentes multicoloridos
tive vontade de fazer o parto da nuvem.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Alguma coisa entre carta e crônica

            Por vezes as palavras escolhem morar na minha cabeça, ficam lá em ato de germinação. Pode ser bem complicado ficar grávida por tempo indeterminado, uma longa e solitária gravidez poética. Há vezes em que a coisa cresce a um ponto que é preciso sentar para parir as criaturas. Por vezes aborto as criaturas, alguns são espontâneos, há palavras que se perdem nos vãos da mente, me entristeço são as coisas que quase foram (no sentido de existir) mas não resistiram e morrem antes do nascimento. Mas há o aborto consciente quando a criatura sai e chega a ocupar a tela branca e por um segundo decido sobre a existência, pronto deletei, sem esforço e com o mesmo pesar por impedir a permanência dela no mundo.
            Começo a falar dessa gravidez das palavras porque faz algum tempo em uma amiga  me disse uma coisa, o tipo de coisa que você escuta e guarda pra si, repetindo com medo de esquecer. Ela me falou que estava numa fase em que a melancolia não prestava, não prestava nem pra poesia. Fiquei grávida desde então...
            Não sei como é ficar grávida de gente, mas ficar grávida de palavra eu sei bem e gravidez poética é também estranho, você fica lá sentindo as criaturas crescerem ocuparem os espaços da mente, como se fosse inchando para dentro. E não se compartilha as dores da gravidez poética, você fica lá pesando pra dentro convivendo com a germinação na sua mente.
           Estabelecer relações na qual é possível compartilhar uma gravidez poética é tão raro. É uma forma de poder esvaziar um pouco dessa coisa que cresce e pesa. É raro, muito raro ...
            A melancolia permite um estado de inadequação em relação ao mundo que é essencial para o fazer poético. É difícil treinar a inadequação quando há muito gozo, mas é possível, é preciso olhar bem as aleluias cotidianas para burilar e aí pelo sentido do olhar inadequado transformar num outra coisa pulsante. Acho que é coisa que vem com o tempo mesmo.
            É preciso melancolia pouca ou muita pra germinar poesia? Eu não sei, mas eu sei que passa pelo estado “do nem alegre nem triste” até a possibilidade da completa desolação. Quando a tinta da escrita é feita de matéria tão pessoal é um risco permanente. Por que correr esse risco por algo que não tem utilidade e que anda cada vez mais em desuso? Eu não sei, mas acho que quando isso é tão intrínseco a sua forma de estar e ser no mundo, não tem jeito você ficará ali sempre a espera da gravidez poética.
            Mas tem vezes em que se fica assim como num engasgo, ‘’ você até quer, mas não pode ’’, foi a resposta de Adélia Prado ao ser questionada pelo silêncio poético por anos. Ela disse ser o estado da aridez.
            Acho que todos enfrentam estados de aridez seja em qual atividade for. Estar na aridez é solitário e não há nada mais difícil que caber na própria solidão. Mas pode ser que os olhos só vejam aridez, sequidão, porém lá em baixo onde nossa compreensão não alcança ficam as sementes germinando lentamente, minhocas arejando o solo e o tempo adubando.
            Às vezes é preciso chegar no árido, onde parece que nada brota para preparar solo novo.


terça-feira, 7 de junho de 2016

Pequena crônica poética – a cidade do som

Esta não é uma cidade para se guardar pelos olhos.
Amar pelos olhos é fácil.
A cidade de dois rios, uma linha e relevo intumescente
será guardada pela exceção:
o som metálico da máquina a mover-se pelos trilhos.
Música do deslocamento.
À noite quando em estado insone,
posso ouvir.
Por vezes o som mistura-se nos sonhos,
É meu desvario libertar o som

Torná-lo incorpóreo. 

Exercício urbano

Fui tomada pelo insano desejo de ver o chão, difícil abaixar os olhos, ensinar a métrica do chão nesse olho tão viciado em céu. chão mor...