terça-feira, 18 de julho de 2017

Pequena crônica poética – sobre os lençóis

Paisagens mutantes,
vento e areia
minúsculos pontos brilhantes envolvidos num sopro.
Sopros e pontos brilhantes construindo relevos.
Lá do céu caem águas,
Enchendo os vazios brancos,
de azuis-verdes
Pode uma paisagem feita de morte ser bonita?
Manto branco encobrindo a restinga,
resistir à delicadeza voraz das areias dia após dia.
Além da imensidão branca...
um rio, graça da vida,
as gentes de lá, miram pra ele enamoradas.
Achei então que as gente de lá são assim banhadas de rio.



segunda-feira, 19 de junho de 2017

brinquedos poéticos

É preciso ser meio partido
Pra gostar de brinquedos poéticos,
Parece que a poesia arruma jeito de emendar as coisas partidas da gente.
Por isso tenho medo de psicólogos ou essas ciências da mente,
metidos a inteirar as pessoas,
prefiro os remendos da poesia.

O mundo já tem muitas gentes inteiras.

Pequena crônica poética - entre o dia e a noite

É preciso sair das serras
Para me ampliar por esse chapadão
De um céu plano
onde o horizonte parece ainda mais longe
céu e terra se fundem.
Lá, as serras me roubam o breve momento entre dia e noite,
a noite chega abrupta.
Mas aqui, entre o dia e a noite
o céu vai se tingindo de cores
entre laranjas, azuis, vermelhos. Paleta inominável
Vou me despedindo do dia
até Deus apagar o último rasgo de luz.


terça-feira, 16 de maio de 2017

Exercício urbano

Fui tomada pelo insano desejo de ver o chão,
difícil abaixar os olhos,
ensinar a métrica do chão
nesse olho tão viciado em céu.
chão moradia do invisível.

Foi pela métrica do chão
que enxerguei os pés.
Milhares deles por todos os cantos,
a natureza resoluta dos pés
|dúvida é pouco afeita ao chão|
Todos os dias pés cheios de pressa
travando lutas. É preciso caber o par.

A métrica do chão
é também para ouvidos.
Nas primeiras vezes pode ser necessário ficar de cócoras,
aprender a captar a frequência.
Com alguma prática
pode-se ouvir a caminhada dos pés,
cada tipo de chão
reverbera diferente.

Tive uma apoteose sonora,
pés em batidas harmônicas
ritmos de subidas e descidas
batuque do caminhar,
eu numa ausculta solitária
entravando o ir e vir.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Tarde da noite,
resta enrolar as palavras
deslizar por entre os dedos;
expirar, gases linguísticos.

Pode dar poesia,
ou prosa?
prosa-poética?

Pode não dar nada,
só um trago de alívio.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Vi uma boca hoje
de um vermelho
des-pu-do-ra-do,
me absorvi,
na dança tremulante.
pausas | mordidas | suspiros| saliva
vermelhos.
Não vi corpo.

Pode ser que fosse um corpo desses comuns
que andam por aí,
mas não sei
naquele breve infinito
pareceu-me que a boca era o corpo.
E a boca saiu por aí, nessa multidão de corpos comuns
Feitos de corpos com bocas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Lily

Demorei anos para me acumular aqui, agora é tempo de esvaziar. Nenhum canto da casa poderia dizer mais sobre mim do que essa estante. Deve ser essa a razão pela qual eu demoro tanto a limpar, separar, destinar, difícil dar cabo em si mesmo. São estes os meus primeiros vazios no mundo, mas tenho um certo prazer em começar o desenho de minha ausência.

Acho que precisarei de mais caixas. Sempre ocupei muito espaço. Resolvi começar o esvaziar pelos livros de papai. Durante anos fui a protetora desses livros grandes, capas duras, folhas de lateral dourada, pesados quando criança eu gostava de tocar mesmo sem nada entender, minhas mãos deslizavam pelo contorno de suas capas. Quando cresci pude conhecer meu pai pelas notas nos cantos das páginas. Escavei todos os livros na busca de seus vestígios, decorei todas as suas notas. Só consegui um esboço.

Todos ali dentro da caixa, à espera da mudança. Se pudesse não os deixaria ir, mas pode ser que em breve eu os veja lá numa outra prateleira, bonitos sendo usados de forma meio solene. Mas pode ser que eu sinta inveja de vê-los resguardando sua finalidade, não quero ver.
Está tão abafado, como se a chuva estivesse na iminência de cair. Preciso descansar um pouco, me falta ar. Sentada fico admirando a velha estante, com todos os porta-retratos, tantas versões de mim. Esqueci todas elas, faz tanto tempo. O corpo se transformou para acomodar todas em mim, difícil se caber, dói todo dia. O reflexo no fundo da estante, tão esquisito parece que a cara sempre foi assim.

Tudo tão organizado, cada coisa no seu lugar. Durante tanto tempo desejei isso, só agora entendi, o que sempre me salvou foi o deslocamento. O mundo teria sido menor se tudo estivesse sempre no lugar, se sentisse tudo com ar de plenitude.

Estava aqui lembrando dessa estante vazia, foi preciso uma vida para preenche-la. A campainha tocou, sim são eles, lá se vão os livros. Esvaziar coube na exata meia hora da espera.

Pequena crônica poética – sobre os lençóis

Paisagens mutantes, vento e areia minúsculos pontos brilhantes envolvidos num sopro. Sopros e pontos brilhantes construindo relevos. Lá ...