quarta-feira, 18 de julho de 2018

Trovinha celeste

Moro numa cidade
onde a noite entra no dia
abruptamente.
Eu tenho saudades
do entremeio do pôr do sol,
a noite come o dia devagarinho,
com sutileza
misturando suas cores,
até serem um só
de gozo o céu pode se espipocar
em brancas estrelas.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Pílula poética - assepsia

Assim suspensa no silêncio da casa me movo,
e meus pós acumulados pelos anos
como aspirar?
[alguém aspira? – eu só sei inspirar]
Minhas mãos percorrem os cômodos
tudo tão limpo,
irrompo num desejo
de estado de sítio
[Cortázar].
Dos dias que se sucedem.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Ofício de mestranda


Hoje fim de mais um dia de trabalho na escrita da dissertação. É difícil me sentir existindo num texto tão duro – regras de formatação, regras de citação, revisão bibliográfica, pode ser que eu tenha esquecido alguma. Agora estou me dando ao luxo de escrever sem nenhum objetivo previamente estabelecido, é mesmo um luxo quando se passa tanto tempo atento às normatizações que se existem para padronizar o trabalho científico ao mesmo tempo tornam todo o processo extremamente rígido. Na maioria do tempo o sinto como uma roupa de festa, bonita aos olhos e desconfortável ao corpo.

Sim lidar com a escrita causa dores físicas, muito tempo sentado, olhos fixos na tela e uma enorme sozinhez. Todo o processo é seu, coletar dados, produzir as análises, organizar o que vai ser escrito, tem muito de silêncio e solidão. É fácil criar alguns monstros em meio a isso, eu já senti vários crescendo em mim. Alguns eu até conseguir matar um pouquinho, mas eles sempre retornam. As vezes duvido muito do que pode resultar de todo esse monólogo já que produção de conhecimento para mim sempre esteve ligada a ideia de compartilhar, trocar enfim de estar com o outro. Podem me dizer: mas Raquel, você está dialogando com muitos autores, pode ser, mas de fato essa produção textual quase monástica tem sido motivo de sofrimento e na medida que entendo o conhecimento como algo ligado ao movimento, ao compartilhamento duvido muito do que sigo produzindo.

Para alguém que exercitava a palavra apenas por diversão, em textos curtos, tem sido um enorme desafio produzir laudas e mais laudas. Mas talvez de fato deveríamos refletir sobre as regras de costura dessa escrita dita acadêmica, científica de alguma forma afrouxar as costuras para nos permitir existir mais. Dar forma aos sentimentos talvez seja um jeito de começar a rever nossas vestes textuais.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Dois encontros

Tem gente que não gosta de andar de ônibus. É coisa que exige um certo tipo de espírito que se joga no desconhecido. Por alguns instantes, horas ou até mesmo dias há tantos trajetos, um espaço de tempo no qual nada se controla. Qualquer pessoa pode se sentar ao seu lado e compartilhar o apoio de braço.
Nesses momentos em que compartilhar com o outro espaços urbanos se coloca como um grande desafio, uma simples viagem de ônibus ensina muito a diversidade e o respeito. Há sempre o que aprender se estivermos com o olhar atento.
Andar de ônibus é espreitar o encontro. Nem todo encontro é feliz. O breve momento do compartilhar as poltronas lado a lado, a linguagem corporal as falas não ditas, o olhar, o ignorar, as frases sobre o tempo, tudo são falas.
Algum tempo atrás um andarilho se sentou ao meu lado. Não trocamos uma palavra, tantas coisas se passaram. Dois mundos se tocando nos estreitos limites das poltronas. Primeiro foi o medo que percorreu meu corpo por todos os poros, os pelos do braço, arrepio, um jato que vai da cabeça aos pés. Aos poucos esse jato ia diminuindo sua força, mas primeiro eu tive que dar vazão nesse sentimento.
Fui enxergando meu companheiro de viagem, um homem alto com um saco preto, estava escuro e pouco pude ver de suas feições. Ele também tinha seus códigos e desviava o olhar para a paisagem da janela. Seguimos compartilhando o silêncio.
Na nossa frente havia um homem que nos encarava, sentia suas pupilas se movendo de um lado ao outro. De alguma forma eu sentia suas interrogações, como se perguntasse por que eu estava sentada ali? Era tão insistente seu olhar.
Fiquei pensando qual seria a história do meu companheiro de viagem? Por onde andou? Para onde seguiria? Meu ponto chegou. Tempo de descer, em casa permaneci pensando no meu companheiro de viagem, duas histórias que se tocaram por breves instantes.
Outra fila, nova viagem. Atrás de mim uma jovem. Não lembro ao certo o motivo de começarmos a conversar o certo foi que sentamos juntas. Foi em uma semana difícil que se deu nosso encontro, semana de perdas e que nenhuma palavra pode expressar a brutalidade das mortes de Anderson e Marielle. Duas estranhas que compartilhavam do mesmo espanto.
No meio da viagem entra um pastor suas falas ecoam, alguns prestam atenção, outros desviam seu olhar, há tantas formas de se ausentar. Ao meu lado minha companheira para nossa conversa e direciona seu olhar para o pastor e se põe a ouvir. Confesso que já tinha visto as mesmas falas mas a forma que a jovem olhou e ouviu as falas foi tão respeitosa, recolhi-me no meu silêncio.
Em um dado momento olhei para minha companheira, as lágrimas que corriam na sua face. Meu desconcerto e só pude perguntar: precisa de alguma coisa? Não, não foi a resposta. Adiante o pastor perguntou se podia dar um abraço em minha companheira de viagem, vi um abraço entre dois estranhos. Algumas mudanças ocorreriam na vida de minha companheira de viagem, acho que era Natália seu nome (ou seria Gabriela), ela se senta e me olha com aqueles olhos sensíveis e me pergunta: você acredita nisso?
Soube pouco dessa pergunta tão difícil. Mas respondo com todo meu coração: às vezes as respostas vem de lugares inesperados.
Provavelmente não encontrei novamente meus companheiros de viagem. Mas ambos permanecerão em minhas lembranças. Novas viagens virão.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Sobre cabelos

Sabe coisas que se multiplicam sem você perceber? Ocorreu comigo e sei acontece com todo mundo, um verdadeiro clichê na vida de todo ser humano. Mas como todo clichê sempre achamos que saberemos o que fazer, bem até acontecer com você. Nesse momento vemos que nada vale experiência acumulada pela humanidade, apesar das muitas fórmulas parece que nenhuma lhe serve.

Ocorreu que esses dias me enxerguei no espelho, quando na maioria das vezes eu só me olho. Então percebi o tempo inscrevendo suas marcas em mim, umas rugas nascendo timidamente, algumas manchas. Até que chegando bem perto do espelho meus cabelos refletiram uma cor diferente, abri uma mecha: estava toda branca, não me lembro o momento em que aumentaram tanto. Estavam tão evidentes, diria que esses fios estavam até felizes com a possibilidade de um dia serem dominantes. Imagine tenho que começar a me despedir dessa cor castanha que me vestiu durante toda a minha vida. Houve fases em que tive umas faixas naturais mais claras, o sol refletia bonito nelas. Nunca mudei minha cor no máximo algumas luzes bem discretas, talvez por uma certa preguiça, mas mais por raiva das raízes, aqueles centímetros de cor diferente me deixariam em um estado de agonia, só de pensar eu desistia de pintar. Se fosse mais animada gostaria de ser ruiva por um tempo.

Os primeiros sinais acho que são vistos primeiro pelos outros, pode ser também porque perceber a passagem do tempo em si mesmo de fato não é uma experiência indolor. Enquanto enxergava meu reflexo no espelho me lembrei de algumas situações interessantes. Há tempos atrás estava no salão arrumando essas mesmas madeixas quando vi uma dessas jornalistas que tinha seu cabelo natural e comentei o quanto achava bonito manter seus nascentes fios brancos e para meu assombro o cabeleireiro me disse: não sei como ela tem coragem de aparecer assim (nunca me esqueci dessa frase), fiquei tão pasma que não consegui responder. E outro recente episódio com essa categoria profissional me sugeriu sutilmente: vamos marcar um horário para por uma cor nesse cabelo? Em uma conversa com uma amiga quando falei de meus cabelos brancos ela perguntou, mas e agora o que você vai fazer?

O fato é não sei o que vou fazer simplesmente porque por mais que se tente ocultar a passagem do tempo, com todos os procedimentos estéticos, essa é uma força bruta e indomável. Mas gostaria que minhas mechas brancas, rebeldes e teimosas não fossem uma questão e muito menos fosse visto como desleixo. Há muitas razões que nos levam a achar as madeixas brancas do Richard Gere bonitas não é mesmo?

Por enquanto pretendo deixar o tempo ir me pintando. Enquanto me enxergava recordei um poema bonito que fala sobre os cabelos brancos, chama-se O banho de Xampu de Elizabeth Bishop que o fez enquanto lavava os cabelos de companheira Lota de Macedo Soares e diz:
“No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
- Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
Amassada e brilhante como a lua.”

Se tenho estrelas cadentes por que desejaria apagar?

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Entre mãe e filha

Te fito nos olhos,
um desejo de estar neles.
O quanto olhamos sem nos enxergarmos?

As coisas que o tempo apaga na gente,
a arte de perder todos os dias
entre rápido e devagar.

Essas lágrimas
teimosas de seus olhos,
são as peles que vestimos caindo no chão?

Muitas vezes eu queria acender coisas em você,
com um sopro encher de ar.
Ver pontos brilhantes.
E fico brava porque não consigo.

Onde miram seus olhos?

Haverá um fio invisível
entre uma mãe e sua filha?
que a vida cumpre de estirar, estirar
mas as vezes encolhe
muito próximo.

Trovinha celeste

Moro numa cidade onde a noite entra no dia abruptamente. Eu tenho saudades do entremeio do pôr do sol, a noite come o dia devagarinho, ...