quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Fragmento sobre o silêncio


Ensurdecedor é o silêncio que me habita; ocupa todos os espaços. Ciente do silêncio que me pertence em minha total condição humana passo a maior parte dos dias iludindo-o com afazeres em constantes dribles. Agora confrontada não sei reagir, perco a vaga noção de controle do tempo que se desmancha em grandes fatias que de forma tão inútil procuro ocupar. Tento conter as ânsias e o silêncio tem ainda mais volume que a música e ao longe a chuva pinga por sobre a calha. Tendo a aguda percepção que destituída de todas as infindáveis listas de obrigações resta o silêncio que punge meus sentidos; é então tão inútil a luta vã. Queria sentir o riso fácil, mas hoje é só isso, tudo escapa de dentro pra fora e esse escopo que tenho de mim esvai-se em sombras com tudo o que lhe dava nitidez de contorno ( a vida, o cotidiano, a vontade de ser) apenas o borrão no espelho com a fumaça quente do banheiro. Tantos anos na tentativa de preencher para que por instantes seja somente o silêncio em sua gruta de vazio em mim.

Tão débil a linha de meu contorno.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Pequena crônica poética – sobre o afeto

                                        ( minha pequena Corumbá de Goiás)


Por vezes era eu na sua pequenez,


nas ruazinhas tortas,

no desalinho da torre,

devagar entranhei em seus lugarejos,

tão meus ficaram os cotidianos.



As partes do corpo

foram sua exata medida,

pernas nos morros,

olhos esverdeados no verde ainda despido do cinza humano,

ouvidos nos zunidos das muriçocas ... nas alvoradas da banda

apenas um corpo.



No instante da divisão,

São dois pares de olhos

que se embaçam no abraço

comungado.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Seara do poema

(Para Diogo de Lima)


   O poema é estado gestação,
   Cresce por dentro...
   Vagarosamente
  
Cá dentro
A matéria bruta
e o intangível
Transfiguram-se.
Por inaptidão
(das terminações nervosas)
de apreender o sentido do óbvio,

o poema é a libertinagem das palavras,
e todo parto é contração dolorosa
(ainda que cheio de gozo)

Após o parto pertence ao outro,
libertino que é,
transfigura-se outra vez.

domingo, 2 de outubro de 2011

Ser- cuia

Sou cuia,
mulher cuia.

os anos amplificam meu estado côncavo,

em estado de quase transbordamento
somente o silêncio.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Pequena crônica poética – a que vela a cidade

Homens ergueram com suas mãos grossas,
paredes sólidas... de pouco prumo,
de pouco esquadro,
há séculos velam a cidade.

Por dentro balbucios ecoam,
no silêncio,
paredes sólidas,
guardam a fé dos homens
há séculos.

Há séculos,
o mistério é o mesmo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Pequena crônica poética – a cidade em mim

A cidade me habita, sou em suas ruas,
casas, recantos...
sou em seus gestos rotineiros,
|por isso o aceno para o senhor a tomar sol|
Todos os dias são de revelação.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Síndrome Abaporu

Algumas vezes eu sinto
minhas extremidades
agigantarem-se,
inchadas por uso,
reclino na fadiga
cheia de gratidão.