sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Hoje não tem poesia

Tem sido difícil tentar explicar o óbvio. Eliane Brum nos diz que vivemos numa crise de palavras, na qual diferente do período da censura a palavra tinha o potencial de transformar a realidade e por isso era cerceada. As violências são ditas, mas nenhuma medida é tomada, em seu texto são relatados muitos exemplos de violências cotidianas: a mulher negra que pinta seu rosto com o sangue do filho morto, os fazendeiros que mataram seis indígenas incluindo um menino de doze anos em Mato Grosso do Sul, a não condenação de torturadores do período da ditadura. Nesses casos as palavras genocídio negro e indígena, tortura nada dizem.
E as palavras não dizem porque como a autora reflete, não há escuta. Aqueles que são vítimas gritam, mas sua voz não encontra nenhum ouvido.
Essas eleições foram isso uma crise de palavra e escuta. Em meio aos memes, as notícias falsas, ódio, violência apenas desertos foram criados, fomos ceifados do diálogo. Ouvir passa a ser apenas uma confirmação do meu desejo, contra isso nenhum argumento pode ser criado.
Nesse momento em que tudo se pode dizer:
“Sou capitão do Exército, minha missão é matar.” | “O erro da ditadura foi torturar e não matar.” | “No período da ditadura, deviam ter
fuzilado uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique.” | “Sou a favor da tortura.”

“Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.” | “Sou
preconceituoso, com muito orgulho.”

“Não te estupro porque você não merece.” | “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida.”

“Pela memória do Coronel Alberto Brilhante Ulstra”

“Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”

“O afrodescente mais leve de lá, pesava 7 arrobas e não fazem nada. Eu acho que nem para procriadores servem mais.”

“ Não vai ter um centímetro demarcado para terra indígena ou quilombola.”

Tortura, preconceito, machismo, racismo pronunciadas em alto e bom som. Há aqueles que ouvem e sente-se aliviados para poderem se expressar, há aqueles que cinicamente preferem dizer que foi o único caminho possível para desmantelar a corrupção, há aqueles que não levaram a sério e em certo momento até riram, porque afinal o mundo do politicamente correto anda muito chato. Há aqueles que dizem, isso é tudo edição de vídeo e perseguição. Em todos os casos a escuta foi negada.
Escrevo para tirar esse aperto no peito, por mais que estejamos numa crise da palavra e da escuta, esse é ainda o único meio possível de lutar.


* Lúcia Skromov fala sobre a tortura que ela sofreu nesse vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=S7w9nT-C1E0.
Mas pode ser que dada a crise de escuta, as pessoas preferem ignorar.

** Textos da Eliane Brum
“O ódio deitou no meu divã”
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/10/politica/1539207771_563062.html

O golpe e os golpeados
https://brasil.elpais.com/brasil/2016/06/20/opinion/1466431465_758346.html

Como resistir em tempos brutos
Um manual para enfrentar as próximas três semanas e transformar luto em verbo
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/08/opinion/1539019640_653931.html

*** Precisamos escutar Bolsonaro
https://karinakuschnir.wordpress.com/

Algumas frases do candidato foram retiradas desse texto e tomei a liberdade de inserir mais algumas através de vídeos facilmente encontrados
em uma busca no Youtube

Hoje não tem poesia

Tem sido difícil tentar explicar o óbvio. Eliane Brum nos diz que vivemos numa crise de palavras, na qual diferente do período da censura a...