sexta-feira, 25 de maio de 2018

Ofício de mestranda


Hoje fim de mais um dia de trabalho na escrita da dissertação. É difícil me sentir existindo num texto tão duro – regras de formatação, regras de citação, revisão bibliográfica, pode ser que eu tenha esquecido alguma. Agora estou me dando ao luxo de escrever sem nenhum objetivo previamente estabelecido, é mesmo um luxo quando se passa tanto tempo atento às normatizações que se existem para padronizar o trabalho científico ao mesmo tempo tornam todo o processo extremamente rígido. Na maioria do tempo o sinto como uma roupa de festa, bonita aos olhos e desconfortável ao corpo.

Sim lidar com a escrita causa dores físicas, muito tempo sentado, olhos fixos na tela e uma enorme sozinhez. Todo o processo é seu, coletar dados, produzir as análises, organizar o que vai ser escrito, tem muito de silêncio e solidão. É fácil criar alguns monstros em meio a isso, eu já senti vários crescendo em mim. Alguns eu até conseguir matar um pouquinho, mas eles sempre retornam. As vezes duvido muito do que pode resultar de todo esse monólogo já que produção de conhecimento para mim sempre esteve ligada a ideia de compartilhar, trocar enfim de estar com o outro. Podem me dizer: mas Raquel, você está dialogando com muitos autores, pode ser, mas de fato essa produção textual quase monástica tem sido motivo de sofrimento e na medida que entendo o conhecimento como algo ligado ao movimento, ao compartilhamento duvido muito do que sigo produzindo.

Para alguém que exercitava a palavra apenas por diversão, em textos curtos, tem sido um enorme desafio produzir laudas e mais laudas. Mas talvez de fato deveríamos refletir sobre as regras de costura dessa escrita dita acadêmica, científica de alguma forma afrouxar as costuras para nos permitir existir mais. Dar forma aos sentimentos talvez seja um jeito de começar a rever nossas vestes textuais.

Um comentário:

  1. A escrita acadêmica, para mim, torna-se muito contraditória. Ao mesmo tempo em que escrevemos sobre um tema que (supostamente) amamos e nos interessamos muito - e isso tem um quê de liberdade que é lindo, temos que nos adequar a diversas regras e formatos que, em grnde medida, nos aprisionam. Terminar é uma mistura de alívio e alegria...

    Um abraço!

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