quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Lily

Demorei anos para me acumular aqui, agora é tempo de esvaziar. Nenhum canto da casa poderia dizer mais sobre mim do que essa estante. Deve ser essa a razão pela qual eu demoro tanto a limpar, separar, destinar, difícil dar cabo em si mesmo. São estes os meus primeiros vazios no mundo, mas tenho um certo prazer em começar o desenho de minha ausência.

Acho que precisarei de mais caixas. Sempre ocupei muito espaço. Resolvi começar o esvaziar pelos livros de papai. Durante anos fui a protetora desses livros grandes, capas duras, folhas de lateral dourada, pesados quando criança eu gostava de tocar mesmo sem nada entender, minhas mãos deslizavam pelo contorno de suas capas. Quando cresci pude conhecer meu pai pelas notas nos cantos das páginas. Escavei todos os livros na busca de seus vestígios, decorei todas as suas notas. Só consegui um esboço.

Todos ali dentro da caixa, à espera da mudança. Se pudesse não os deixaria ir, mas pode ser que em breve eu os veja lá numa outra prateleira, bonitos sendo usados de forma meio solene. Mas pode ser que eu sinta inveja de vê-los resguardando sua finalidade, não quero ver.
Está tão abafado, como se a chuva estivesse na iminência de cair. Preciso descansar um pouco, me falta ar. Sentada fico admirando a velha estante, com todos os porta-retratos, tantas versões de mim. Esqueci todas elas, faz tanto tempo. O corpo se transformou para acomodar todas em mim, difícil se caber, dói todo dia. O reflexo no fundo da estante, tão esquisito parece que a cara sempre foi assim.

Tudo tão organizado, cada coisa no seu lugar. Durante tanto tempo desejei isso, só agora entendi, o que sempre me salvou foi o deslocamento. O mundo teria sido menor se tudo estivesse sempre no lugar, se sentisse tudo com ar de plenitude.

Estava aqui lembrando dessa estante vazia, foi preciso uma vida para preenche-la. A campainha tocou, sim são eles, lá se vão os livros. Esvaziar coube na exata meia hora da espera.

Mares brilhantes

Tudo chega tão rápido, Mares infinitos que se abrem por meio de telas brilhantes. Tanto mais eu nado, mais me afogo. Bits brilhantes de m...