sexta-feira, 10 de junho de 2016

Alguma coisa entre carta e crônica

            Por vezes as palavras escolhem morar na minha cabeça, ficam lá em ato de germinação. Pode ser bem complicado ficar grávida por tempo indeterminado, uma longa e solitária gravidez poética. Há vezes em que a coisa cresce a um ponto que é preciso sentar para parir as criaturas. Por vezes aborto as criaturas, alguns são espontâneos, há palavras que se perdem nos vãos da mente, me entristeço são as coisas que quase foram (no sentido de existir) mas não resistiram e morrem antes do nascimento. Mas há o aborto consciente quando a criatura sai e chega a ocupar a tela branca e por um segundo decido sobre a existência, pronto deletei, sem esforço e com o mesmo pesar por impedir a permanência dela no mundo.
            Começo a falar dessa gravidez das palavras porque faz algum tempo em uma amiga  me disse uma coisa, o tipo de coisa que você escuta e guarda pra si, repetindo com medo de esquecer. Ela me falou que estava numa fase em que a melancolia não prestava, não prestava nem pra poesia. Fiquei grávida desde então...
            Não sei como é ficar grávida de gente, mas ficar grávida de palavra eu sei bem e gravidez poética é também estranho, você fica lá sentindo as criaturas crescerem ocuparem os espaços da mente, como se fosse inchando para dentro. E não se compartilha as dores da gravidez poética, você fica lá pesando pra dentro convivendo com a germinação na sua mente.
           Estabelecer relações na qual é possível compartilhar uma gravidez poética é tão raro. É uma forma de poder esvaziar um pouco dessa coisa que cresce e pesa. É raro, muito raro ...
            A melancolia permite um estado de inadequação em relação ao mundo que é essencial para o fazer poético. É difícil treinar a inadequação quando há muito gozo, mas é possível, é preciso olhar bem as aleluias cotidianas para burilar e aí pelo sentido do olhar inadequado transformar num outra coisa pulsante. Acho que é coisa que vem com o tempo mesmo.
            É preciso melancolia pouca ou muita pra germinar poesia? Eu não sei, mas eu sei que passa pelo estado “do nem alegre nem triste” até a possibilidade da completa desolação. Quando a tinta da escrita é feita de matéria tão pessoal é um risco permanente. Por que correr esse risco por algo que não tem utilidade e que anda cada vez mais em desuso? Eu não sei, mas acho que quando isso é tão intrínseco a sua forma de estar e ser no mundo, não tem jeito você ficará ali sempre a espera da gravidez poética.
            Mas tem vezes em que se fica assim como num engasgo, ‘’ você até quer, mas não pode ’’, foi a resposta de Adélia Prado ao ser questionada pelo silêncio poético por anos. Ela disse ser o estado da aridez.
            Acho que todos enfrentam estados de aridez seja em qual atividade for. Estar na aridez é solitário e não há nada mais difícil que caber na própria solidão. Mas pode ser que os olhos só vejam aridez, sequidão, porém lá em baixo onde nossa compreensão não alcança ficam as sementes germinando lentamente, minhocas arejando o solo e o tempo adubando.
            Às vezes é preciso chegar no árido, onde parece que nada brota para preparar solo novo.


terça-feira, 7 de junho de 2016

Pequena crônica poética – a cidade do som

Esta não é uma cidade para se guardar pelos olhos.
Amar pelos olhos é fácil.
A cidade de dois rios, uma linha e relevo intumescente
será guardada pela exceção:
o som metálico da máquina a mover-se pelos trilhos.
Música do deslocamento.
À noite quando em estado insone,
posso ouvir.
Por vezes o som mistura-se nos sonhos,
É meu desvario libertar o som

Torná-lo incorpóreo. 

Mares brilhantes

Tudo chega tão rápido, Mares infinitos que se abrem por meio de telas brilhantes. Tanto mais eu nado, mais me afogo. Bits brilhantes de m...