domingo, 24 de junho de 2012

A chave do jardim secreto


Perdi a minha chave? Durante esse primeiro semestre faço essa indagação, com alguma “estranhez” meu jardim secreto tornou-se inacessível. Então o mundo externo que tantas vezes é tão fatigante cresce em mim e aspira meu pequeno universo.
Em criança recordo-me do deslumbramento diante do livro grande com bordas douradas era a obra completa do Monteiro Lobato, carregava o bendito para todos os lados. O Sitio do Picapau Amarelo foi meu primeiro reino encantado, foi com ele que fui a Grécia e descobri que as estatuas tinham cor, assisti ao por do sol de trombeta e aprendi que todo o texto quando não sabemos mesmo como começar é só encher de seis grandes interrogações ( hoje compreendo que é a interrogação será sempre constante). Emilia, boneca meio gente, cedo compreendi que ela era o porta-voz do escritor oculto.
Depois do Sitio do Picapau Amarelo vieram outros reinos: O jardim secreto, País das Maravilhas, Terra do Nunca, Pais dos espelhos, As casas de Laura  Ingalls, o mundo de Sofia, a dor real de Annie Frankie e outros que minha memória desbotou seus tons.
 Revisitei Alice no País das Maravilhas a história é a mesma, mas os nuances são diferentes quando o olho amadurece é impossível não se admirar com a existência de um cogumelo que faz crescer e diminuir. Hoje percebo que na vida adulta as pessoas escolhem seus “cogumelos” vestindo seus tamanhos de pequenez ou grandeza e compreendo a extrema importância de se ter a medida exata. E o tic-tac do relógio do coelho a lembrar: estou atrasado... estou atrasado é sempre essa corrida maluca que nos propomos para dar conta das inúmeras exigências ( pagar contas, ganhar o dinheiro, ser bonito, inteligente, líder, estudar, trabalhar são tantos verbos).
Quando relembro a capacidade de admirar a fantasia não é em tom de escapismo é a certeza de que destituída da chave que abre o jardim secreto existo pela metade. E à medida que as exigências reais crescem mais a chave emperra na fechadura e o temor de que o reflexo do espelho seja a caricatura da mulher “ modus operandi” que nada admira, nada sente, nada vê, nada transforma, nada imagina é muda.
Já velha descobri o mundo de Nárnia meu atenuante no período “modus operandi” e com sintoma de mudez poética-patética. Impressiona a riqueza da descrição das terras narnianas e toda a alegoria utilizada pelo autor para falar de coisas de coisas tão complexas como o poder, tirania, antagonismo entre o mal e o bem, as trapaças em busca de poder (muitas vezes tomamos como o detentor do poder um burro travestido de pele de leão)[1]. Lewis em um texto final chamado Três maneiras de escrever para crianças discorre sobre os livros de fantasia e diz que ao final muitas vezes eles propiciam ao leitor a ampliação e compreensão dos sentimentos humanos para ele a fantasia perigosa é aquela superficialmente realista quando as histórias passam a tratar dos anseios puramente materiais ( enredos com  beldades, dinheiro etc.) estreitando assim a formação do caráter infantil.
Recuperar a chave perdida do jardim secreto será a missão particular porque é preciso adquirir novos sentidos sobre nossa humana condição.



[1]  Veja em a Última Batalha.

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