terça-feira, 10 de março de 2009

Maternidade – preparatório

Há certos dias do mês,
em que todos os pequeninos
saltam-me ao colo.
Antes era de amiúdo
esse estranho acontecimento,
dia a dia ficou freqüente.

Sobre as coisas ocultas

Escondo-me.
Cada palavra
redigida no escuro,
por debaixo da coberta.
Escondem-se
todas as palavras
esquivam-se de minhas mãos;
quando consigo por ventura capturar,
tal ser anímico,
não há jeito,
não a forma,
de ordenar,
impor ritmo,
precisão.
Minha retina captura
A menina
O velho
A mãe
A briga
A correria
Os gritos
O algodão-doce
O beijo de língua
Dias de volúpia.

Hoje é dia branco.

Floração

Um roxo intenso,
É tanto roxo, que enche minha pupila
Chega a ser vulgar tanta cor,
Mas é passar e virar para ver o roxo
Às vezes, meu olhar se detém,
Tempos indefinidos
Quanta cor!
Quanta cor!
Em certos períodos do ano,
Meu caminhar fica mais longo,
Porque me demoro,
Quanta cor!
Quanto roxo!
Beleza explicita
Como mulher no verão
Impossível não se notar,
O roxo impregna meu corpo
De tal forma,
Que sinto a cor virar cheiro
Um cheiro de colônia doce,
Dessas que ficam por muitos dias
Agarradas junto ao corpo.

Quanta cor!
Quanto roxo!

Polifonia

Um único som...
Feito de vários sons,
Vibração no ar...
Arrepio no corpo,
Som
Som
Som
Musica
Um único som
Feito de vários sons
Sons
Percorrer o som,
Sentir
O grave,
O sussurro
Su-
ssu-
rro
O agudo
Gritante
O homem
A mulher
O velho
A criança
Vozes
Varias vozes
Que percorrem
O vazio
Transpassam meu corpo
Arrepio
Lágrima...
Deleite.

Som
Silêncio.

Casinha

Des-tra-me-lei
As portas...

Des-tra-me-lei
As janelas...

Tudo aberto.

Os retratos na parede
me espionavam,
Os enfeites de porcelana
sempre no mesmo lugar.
Era a sala de visita sem visita.

As camas de mola
Pula-pula, pula-pula...
Na noite sempre fria
Cobertas pesadas
daquelas tecidas no tear
(que sapecavam).
Estranhamente uma porta,
Nunca aberta... que dava para o quarto do padrinho.

O banco de madeira
Um dos primeiros trabalhos de papai
(repetidamente escutei essa história).
Por horas, ali sentados a conversar.

Gostava de andar por essa parte da casa,
O piso de madeira chiava....

Mas era na cozinha grande
com o fogão de lenha sempre aceso,
o cheiro de café e quitandas...
são tantos cheiros...tantos gostos
É onde sempre estava vovó...
tão pequena ...
com tanta vastidão ao seu redor.
Foi ela quem pos em minha mão
o pintinho-doente... para mim foi assombroso,
nunca conseguia pegar nenhum.
(tão macio)

O quintal era tão grande...
(ou me parecia)
Cenário de minhas brincadeiras.

Tra-me-lei
as janelas

Tra-me-lei
as portas.

Já não abrem mais.



O que consome

Sinto uma quentura na nuca;
até as palavras escorrem leitosas.
A casa está vazia;
Não há ninguém,
Não há nada.
Não há sons.
Só esse torpor
Parasita de mim;
é por esse verme
que passo os dias querendo prolongar as noites;
e as vezes ao meio da tarde
meu estomago embrulha até eu chorar.
O parasita de mim faz-me pequena diante do mundo,
não sei matá-lo.

Pequena crônica poética – sobre os lençóis

Paisagens mutantes, vento e areia minúsculos pontos brilhantes envolvidos num sopro. Sopros e pontos brilhantes construindo relevos. Lá ...